Lembro exatamente como se fosse hoje a primeira vez que um vislumbre de Eu Conheço Uzomi veio à minha cabeça.
- Kinaya Black

- há 4 dias
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2020. Sozinha no meu apartamento minúsculo, na mesma cidade em que toda a minha família morava, mas há quase um ano sem vê-los. Era dia de eleição. Eu acompanhava a apuração dos votos para prefeito, e a direita ganhou. Lembro exatamente do meu corpo inteiro tremer a cada urna aberta, dos fogos e gritos nas ruas, do som troando a música "Arruma a mala aê". Era a primeira vez que eu sentia um impacto tão próximo da direita na minha vida pessoal e cotidiana.
Eu não queria voltar ao trabalho. Eu não queria voltar pro meu trabalho porque, na verdade, eu não queria ter que conviver com todos os meus colegas professores felizes com a saída da esquerda. Não queria ver meus alunos, que já me ofereceram uma banana, reproduzindo as falas e atitudes dos pais. Crianças que cresciam sem um mínimo de filtro social possível. Crianças que vejo crescendo sem o mínimo de companheirismo, a não ser da babá. E assim fica muito fácil dizer que não precisamos de ninguém ou de nada, apenas do nosso próprio esforço, sendo que sempre tiveram de tudo material.
Se você não leu ainda, me desculpe. Talvez você encontre spoilers, mas irei adorar te contar minha história para que assim você possa conhecê-la.
Hadassa perdeu o emprego, diferente de mim, que pedi demissão cerca de seis meses depois das eleições. Hadassa não podia sair da cidade, mas eu sim, e foi o que fiz. Fui embora, e por mais que todos que amo estejam lá, acho que não quero mais voltar. Hadassa mora com toda a sua família. Eu já não posso ter o mesmo. Hadassa é uma das protagonistas de Eu Conheço Uzomi.
Decidi começar essa newsletter falando sobre meu livro porque é no livro que muitas vezes mostramos nossa habilidade na escrita. E confesso que Eu Conheço Uzomi está bem abaixo do que realmente quero mostrar. É claro que gosto da minha obra. Não é meu primeiro livro, mas o que muitos não sabem é que seu processo de escrita não foi conturbado apenas pela pandemia.
Uzomi (como eu chamo carinhosamente) foi aprovado em um edital cultural. Sua inscrição foi realizada em outubro de 2020. As eleições haviam sido adiadas para novembro, mas sabe quando você sente que alguma coisa não está indo favorável ao lado que você defende? Pois é. Em outubro, eu já sentia o céu escurecendo. O Brasil até hoje me gera arrepios, e foi num desses que a primeira ideia desse livro nasceu.
Eu trabalho com projetos culturais e tinha (ainda tenho) uma vontade absurda de conseguir publicar meus livros por edital cultural, podendo assim fazer o livro circular de forma gratuita e chegar a quem realmente precisa dele. Eu tive menos de seis meses para terminar a história, revisar, fazer a capa, organizar a distribuição, fazer o lançamento e... o resultado? Um livro que, apesar de muito curto, sempre me presenteia com leitores que querem conhecer o sertão por meio do afrofuturismo ou o afrofuturismo por meio do sertão. Nunca imaginei que mais de mil pessoas leriam meu e-book e que receberíamos mais solicitações do que a tiragem inicial.
E sim, recebo críticas como qualquer outra pessoa, mas a maioria são voltadas ao final aberto, o que me traz 90% de leitores perguntando sobre a continuação. Acho que vamos ficar aguardando um volume 2 tanto quanto a continuação de Telephone, da Gaga e da Bey. Para acalmar, posso dizer que Eu Conheço Uzomi é só uma das histórias que tenho escrito sobre um Ceará futurista. E digo futurista porque não estou criando uma utopia ou um mundo negro de paz e amor.
O Uzomiverso é um espaço onde coloco minhas impressões do Brasil. Ou melhor, como eu penso o que pode acontecer no futuro a partir de escolhas reais nossas hoje. É como eu enxergo o poder, a atuação das big techs nos países de terceiro mundo, o avanço do neoliberalismo, a implementação de mais fábricas que fazem os jovens ter que escolher o trabalho ao estudo para conseguirem sobreviver, o descaso com a educação e a ameaça da privatização de serviços públicos.
Nunca fui boa em falar sobre política com palavras polidas, mas já dizia Fanon, em Os Condenados da Terra, que "a experiência prova que as massas compreendem perfeitamente os problemas mais complicados". Talvez eu não consiga explicar o que é, mas eu sinto. E a forma como processo isso é através da literatura.
Atualmente, a gente tem visto um discurso sombrio em relação à diversidade e à verdade nas redes sociais, e isso me deu mais gás para criar o Prefiro Escrever. Essa disputa que, resumidamente, vou falar assim: entre Xandão e Elon Musk. Ou seja, o debate sobre a regulamentação das redes sociais tem um buraco muito mais embaixo.
Logo no início do meu livro, Hadassa conta que não possui mais acesso à internet, não fala mais com webamigos, e isso parece um absurdo de se pensar acontecer. Mas precisamos entender que a internet é um espaço pago e, ainda mais, eu preciso de um dispositivo para acessar. E para que eu tenha um dispositivo, eu preciso ter dinheiro.
Tenho familiares que moram na zona rural e falo com eles pelo TikTok. Porém, essas pessoas, que são mais velhas que eu, não tiveram o mesmo acesso que eu tive a computador e internet desde o início dos anos 2000. Não é legal se imaginar numa situação tão miserável que você não tem mais nem um item considerado básico, como um celular com acesso à internet através de um plano móvel ou provedor. Essa não é a situação da minha família, mas, infelizmente, o futuro não precisa chegar para vermos que isso é a realidade de muitas pessoas. E por que falo do celular e da internet? Porque aposto que, assim como eu, você também não consegue viver sem.
Em outra história, que espero publicar em breve, os personagens não possuem mais acesso à nuvem, pois certas empresas não funcionam mais na nossa região ou cobram planos absurdos. É como se somente a elite tivesse direito ao que consideramos básico hoje, pois, em um determinado momento, nossas escolhas nos levaram a isso. E aqui sou obrigada a citar Fanon novamente quando ele diz que "a burguesia dirige o país a princípio com o apoio do povo, mas em breve contra ele". Ou você acreditou mesmo no vídeo de um certo político que viralizou?
Acredito que a parte mais chocante de Eu Conheço Uzomi seja a questão do abuso corporal. O uso do corpo negro em favor das big techs sem consentimento. Quando assisti ao vídeo de lançamento dos robôs do Elon Musk, logo pensei não só no Uzomi, mas também em outra história que foca somente nesse tema, e que voltei a trabalhar nela desde o fim de 2024. Acontece que Uzomi seria muito mais pesado, mas, como foi aprovado em edital cultural, necessariamente a classificação deve ser livre ou quase isso. Já tive vontade de lançar a versão pensada originalmente, mas acredito que o que vem aí me satisfaz.
Espero que continue aqui depois dessa breve apresentação, pois ainda tenho muito o que falar, mas prefiro escrever.
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