Ainda me sinto atraída pelo amor romântico, mas eu prefiro deixar meu pé no chão.
- Kinaya Conteúdos
- há 4 dias
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Sim, eu quero ganhar flores, quero jantares com vinho, quero andar de mãos dadas, tirar fotos de olho no olho, quero ganhar um anel, que vou esquecerde usar, assim como vou deixar as flores murcharem e não vou aguentar um gole de qualquer vinho.
Eu choraria, sim, eu choraria se acordasse com flores e um café da manhã, ou só com as flores, já seria o suficiente para me fazer perder a postura. Eu te beijaria e agradeceria pelo presente. E depois? Qual o próximo passo? Existe uma mágica? Um efeito? Dura quanto tempo? Tudo se conserta? Mas o que está quebrado? Se não minha consciência? O que tem de errado conosco? O que tem de errado comigo? Quero receber sem dar, mas sempre quero dar.
As flores te fariam ficar acordado até tarde comigo na cama? Ou as flores seriam para fugir disso? Os chocolates dariam me beijos nas costas ou eu quem deveria fazer o que queria que você fizesse? Eu devo agir, no lugar de esperar? Esperar pelo romance que diz eu te amo com outras palavras e metáforas, que são compartilhadas como cobranças afetivas a partir de seres que não existem? Se você não existe como eu quero, portanto te inventarei em linhas, para me amar do jeito que eu quero, não do seu. Será que você vai se perguntar: e eu? O que ganho? Eu não mereço também receber?
Pelo jeito, é tudo sobre mim. Não, não é você quem deve se ajeitar, sou eu. Eu preciso limpar a minha bagunça, mas ela está sempre armada. Preciso colocar na minha cabeça que o amor não é servidão, por mais que vendam nas igrejas. O amor como servidão é um controle. É isso que eu quero? Controlar você, como controlo meu personagem em um jogo. Onde faço com ele o que eu quiser sem precisar me preocupar com minhas próprias ações. É isso que eu quero?
Quando eu tinha 14 anos vi uma amiga ganhar flores de um homem. Ele interessado, fez questão de mandar flores e um cartão para que todos, ou todas nós, víssemos. Eu nunca tinha visto esse ato pessoalmente, mas já tinha visto em todos os episódios do seriado chaves, em todas as novelas da Globo, ou mexicanas. Mandar flores é sem dúvidas a trend mais popular dos relacionamentos.
Conversando com um amigo, ele me diz que não sabe o que vai fazer no Dia dos Namorados, pois não está a fim de fazer nada. Sua saída? Levar flores. Não tenho a experiência das flores e sei que não terei. Uma vez conversando com uma amiga, ela me fala sobre seu ex-namorado. Um homem muito romântico, mas não presente. Ter essa conversa foi muito importante pra mim, por mais que ela quem quisesse falar, pareceu que eu quem deveria ouvir. Eu nunca havia conversado com uma mulher adulta sobre isso.
Colocar o pé no chão é saber que não se pode haver amor se só um recebe de tudo e em troca não dar nada. Sempre o recebimento, nunca o olhar para o outro. Sempre o eu. Eu quero que você seja assim, eu quero que você faça assim. É isso que eu quero para mim? Não, não é isso. Mas me afastar de quem não enxerga já foi um começo. Um começo também de um ciclo reduzido de amigos. Não quero ser mais quem eu sou, mas quero ser amada do jeito que consigo ser.
Eu converso muito pouco, seja com quem for, sobre qualquer coisa. Não consigo conversar, só consigo escrever e muitas vezes: só para mim. Acontece que nós, mulheres, e nem vou fazer um recorte agora sobre raça, aprendemos a amar desde cedo a partir de relacionamento utópicos e sacrificantes, e os meninos?
Eu poderia começar um ensaio sobre como o amor do príncipe encantado da Disney e o amor cristão nos fizeram aceitar formas de afetos que nos machucam e nos condicionaram a sermos servos e não amantes. Enquanto uma pessoa negra, digo que para entendermos como o amor pode nos acompanhar, precisamos vencer séculos de destruição familiar e pouco estímulo a criação de laços.
Precisamos entender que os homens, e em recorte, os homens negros, são cobrados para não serem sentimentais, enquanto as mulheres são ensinadas a esperar o homem mais dotado de sentimentos do mundo. A conta não bate, estão nos criado para a violência, enquanto não permitirem que os homens também possam amar. Possa amar antes de ser o provedor.
Quem ensina o amor aos homens? Aos homens negros?
Quando criança, somos princesas da Disney, crescemos esperando o príncipe encantado do desenho, até mesmo o do desenho da Pequena Sereia Negra. Mas ninguém mostra aos meninos que eles devem ser como os príncipes que estamos esperando. Ninguém permite os meninos crescerem gerindo o amor, como nos obrigam a gerir uma relação.
(e as flores se tornam um símbolo do que fazer quando você não sabe como gerir seu sentimento e companheirismo)
Ainda tem a questão que: somos ensinadas que se alguém nos der flores, nos ama. Se alguém sacrificar seu racha para ficar conosco, nos ama. Se deixar para trás seus amigos e amigas, aqueles que sempre estiveram, até mesmo desde a infância, com ele: nos ama. O amor que nos ensinam é um bloqueador de relacionamentos básicos da vida social e humana. Isso vale para ambos.
Os meninos nunca serão como esperamos, os meninos não podem crescer no amor, eles precisam crescer de acordo com o que o patriarcado manda. Eles precisam ser fortes, eles não podem chorar, e qual reação mais acompanha o amor, se não o choro? Mas, se ao homem não é ensinado a amar desde cedo, como ele vai gerir seus sentimentos quando o amor chegar. Porque o amor sempre chega. Seja ele como for.
Quando esse amor chega, ele não sabe o que fazer, e muitas vezes, mulheres como eu, também não sabem e o relacionamento vira de espelho. E às vezes, o espelho não mostra a mesma imagem para ambos.
Descobri recentemente um acervo antigo de amor romântico e não me reconheci. Eu realmente deixei para trás breguices e dei atenção ao companheirismo.
O dia que amanheci sem as flores foi igual a qualquer outro dia.
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