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Carta aos entendimentos ou inquietações.

  • Foto do escritor: Kinaya Conteúdos
    Kinaya Conteúdos
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura
Pra nossa relação ser não monogâmica basta começar a beijar outras pessoas?

A forma como estamos caminhando juntos é saudável, estranha aos olhos dos outros casais e menos romântica a cada dia.

Se a não monogamia não é sobre abrir o relacionamento e sim sobre relacionamentos que não privam a experiência do outro, estamos nós construindo algo nessa perspectiva?

Nunca tinha sido contra os relacionamentos abertos, sempre “perdoei” traições. E coloco em aspas pois até isso agora questiono. O peso da palavra perdão é muito forte pra uma situação que me parece mais humana do que comum. Quando estou solteira eu consigo facilmente me apaixonar por mais de uma pessoa, até na adolescência, nunca consegui gostar de uma única pessoa mas fui sendo cada vez mais ensinada a isso. Eu precisava sempre excluir alguém, esquecer, é errado.

“você não pode amar duas pessoas ao mesmo tempo”.

A primeira vez que descobri uma traição meu mundo caiu. Meu coração então, de tanto bater quis parar. Depois eu coloquei na cabeça: nunca mais quero descobrir uma traição. Isso ainda pode me machucar nos dias de hoje? Afinal, no fundo, das idealizações(?), eu ainda quero um romance. Mas o relacionamento seguiu, nós muito jovens, tentamos continuar e não me arrependo. Na verdade, não me arrependo de nada que fiz em minha vida. Mas veio o fim, não por conta de traição, mas pelos nossos caminhos se afastando.

E veio o próximo relacionamento, mascarando violências na desconstrução e militância. O tempo passou e percebendo que eu estava afim de outra pessoa, afinal eu não sei disfarçar quando me apaixono, pois amo me apaixonar e me desapaixonar.

Sou escritora, logo adoro arcos.

Vendo que eu podia traí-lo, ele propôs “abrir” o relacionamento da seguinte forma: Eu tinha os vales. Se eu iria para uma festa sozinha eu poderia ficar com pessoas sem ser considerado traição. E sim, eu adorei isso. No início fiquei com ciúme, sempre fui possessiva e egoísta e não estou falando sobre pessoas. Criada como filha única até os 15. Mas depois passou. Os momentos quando estávamos juntos estavam iguais. Eram os nossos momentos. Foi assim por meses, até que uma foto, na rede social que estava surgindo no momento, apareceu. Uma comemoração de aniversário de uma amiga. Eu fiquei bem longe da pessoa mas o fato de se ter uma foto com ele (com o outro?) incendiou a relação. Não no bom sentido. Eu usei todos os meus vales com aquela pessoa. Estávamos tendo um caso, então? Mas como estaríamos tendo um caso se íamos ao cinema e andávamos de mãos dadas.

Talvez eu levei os vales à sério demais.

Quando o nome chegou ao dono da boca: eu fui violentada.

E assim, a primeira vez que pensei que estava no lugar certo com meus sentimentos recebi uma correção que colocou na minha cabeça mais uma vez que era errado. Desde então tenho raiva de qualquer coisa sobre relacionamento aberto ou relacionamento não monogâmico. Odiava cada palavra, teoria, conceito.

Eu odiava qualquer coisa que me fizesse lembrar do abuso. Ele colocou à força que não se deve nunca amar sem posse.

“Se não sou sua, você não me ama” um lema? O pior disso tudo é ter tesão em ouvir pronomes possessivos. E acho que ter assistido bebê rena me fez perceber que não sou a única que já passou por algo assim e ficou quebrada. Ouvi de outras mulheres a mesma pergunta: pq. é que a gente volta pro agressor? O que quer dizer que não é voltar pra mesma pessoa, mas para as mesmas violências. E permanecer num ciclo de falso afeto criado pelo trauma, o mesmo que implantou que se você não agir assim e aceitar isso, você não está fazendo o certo, pois, o trauma se mistura ao caminho, ele permanece pra que você não se desvie. Não o abandone. Ele não sabe viver sem você.

Quando cheguei aqui, eu vim mesmo carregando o passado. Não alguém, mas as diretrizes para não errar novamente. E quando ouvi “não tenho ciúme de você”, meu corpo esfriou. Então se você não tem ciúme, não me deseja. Se você não tem ciúme, como vai cuidar de mim? E você cuidou. E continuacuidando. Como vim parar em alguém como você? Você quebra todas as expectativas do trauma, ele arde em mim sempre que você me ama, do seu jeito. Mas, às vezes eu ainda não consigo.

Não consigo lidar com a liberdade. E me isolo.

Talvez eu consiga falar melhor do que passou e não do que estou passando. Mas ainda preciso trabalhar a lubrificação, meu rosto sempre fica muito molhado.

Você tem me ensinado muito quebrando os ideais que colocaram na minha cabeça. Ainda sou romântica, mas quero trabalhar isso também e deixar de ser. Mas se eu fizer isso estarei buscando à mim ou me deixando para ser como você? (isso não é sobre o que você quer). No fim das contas eu só quero te fazer feliz.

Quando o presente chega eu deixo o cursor piscando por um tempo. A mão adormece e dou um tempo.

Você é a pessoa mais fiel que eu já conheci. Até mais que eu, pois mesmo depois da correção, eu continuei como se ainda existissem vales. Por falar em fidelidade, eu falo tão bem sobre isso não existir na relação literatura e cinema, que são nossos lugares de arte, inclusive. Apesar de que você já estivesse em minha vida antes de tudo isso acontecer, eu nunca consegui te contar tudo. Mas consigo te escrever.

A escrita é minha forma primária, o corpo é só fantasia. É nas palavras que eu verdadeiramente amo e me crio.

 
 
 

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