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Reflexões sobre o que faço da vida(e o que a vida faz de mim)

  • Foto do escritor: Kinaya Black
    Kinaya Black
  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

Fevereiro é sempre cheio. Não tem como. Eu tento descansar ou maneirar no trabalho próximo ao feriado de carnaval, mas nunca funciona. Pensei que este ano eu não teria que trabalhar no carnaval, mas, mais uma vez, lá vou eu tentar conciliar trabalho, descanso e a vontade e paixão absurda que tenho por festas de carnaval.

O PREFIRO ESCREVER de hoje é uma reflexão sobre  um campo que talvez você não conheça tanto assim: o que eu realmente faço da vida e da literatura.


Você sabe que eu escrevi um livro afrofuturista chamado Eu Conheço Uzomi, ambientado na região do sertão central, onde nasci e me criei, mas em um tempo futuro não muito distante e que, como falei no texto anterior, está cada vez mais próximo. Mas não sei se você sabe que, antes de escrever um livro afrofuturista, eu já tinha um TCC e artigos sobre literatura afrofuturista. E eu fico bem pê da vida quando recebo mensagens de pessoas me pedindo para dizer a elas como devem escrever afrofuturismo, pois possuem vontade de “se aventurar” no “gênero”.


Acredito que o afrofuturismo é como a poesia: não há possibilidade de escrever poesia sem antes olhar para dentro de si e do outro. Não tem como conceber uma poesia sem ser costurado por ela. Na verdade, é a poesia que nos costura, e assim também é o afrofuturismo.


Mas é assim que surgem as assessorias, né? E isso tem acontecido. Eu gosto muito quando me procuram com uma proposta para além da ideia do “achei Pantera Negra legal e queria explorar o afrofuturismo”. Gosto mesmo quando chegam contando que a inspiração vem de pessoas reais, de situações que viveram ou que ouviram falar, que observaram (o que mais escritor faz na vida é observar a vida alheia; não é fofoca, é pesquisa). Gosto ainda mais de receber propostas para somar em projetos culturais e artísticos. Recentemente, recebi um convite que me deixou encantada, pois, pela primeira vez, poderei (quem sabe) trabalhar afrofuturismo para um público diferente. Eu não sou de contar nada que não esteja 100% fechado, mas vou confiar em você e que cê não seja pé-frio, ok?


E por que eu gosto dessas propostas? Porque acredito que o afrofuturismo pode ser uma ótima ferramenta ou meio para a abordagem de outras questões sociais. Também acredito nele como um caminho para pensar organizações negrocentradas.

Aqui está o primeiro trabalho: pesquisa e assessoria em afrofuturismo. O segundo trabalho é minha essência: escrita. Sim, escrever ficção é um trabalho.


Eu não escrevo só literatura de ficção; também escrevo roteiros de ficção. Atualmente, estou escrevendo meu primeiro roteiro de longa, e um de meus roteiros de curta está sendo produzido. Quero muito escrever sobre o processo do longa, afinal, Eu Conheço Uzomi está sendo reescrito, e quando digo reescrito, é realmente isso que você está pensando. Aquelas mudanças que fazem a gente dizer coisas do tipo: "o livro é melhor". Acontece que, quando você estuda a relação entre literatura e cinema, você reelabora ou derrota totalmente sua percepção de fidelidade. Mas tenha calma, nem tudo mudou! Só tenha em mente que é uma adaptação.


Estar tendo a chance de pegar novamente nessa história e poder mexer nela sendo remunerada, e não mais nas horas vagas de trabalho que me sobravam, tem possibilitado que eu realmente explore o que queria entregar inicialmente e tive que conter devido à classificação livre do edital. Dentro dessa exploração do meu próprio universo, estou sendo puxada pelas orelhas por conta da nossa garota Hadassa. Pois é, ela vem me dando trabalho justamente por não dar trabalho na narrativa. Estou em um momento onde preciso transformar Hadassa em uma pessoa humana, ela precisa ser gente. Gente como a gente, ter defeitos, raivas, ter um caráter ou hipocrisias, como todos nós.


Escrever é um trabalho de observação, mas não só do mundo ao nosso redor. É também um olhar para dentro. Quando comecei a reescrever Eu Conheço Uzomi para o roteiro e me vi diante desse problema, me perguntei: o que faz de alguém realmente humano? Foi aí que veio a provocação da equipe: será que eu nunca assumi uma postura tóxica com alguém? Nunca magoei sem querer? Nunca agi de maneira egoísta, ainda que tentando acertar? É confortável pensar que toxicidade é algo distante, que está sempre no outro, mas a verdade é que, em algum momento da vida, todo mundo já esteve dos dois lados. Isso não significa que sejamos condenáveis, significa apenas que somos humanos, cheios de contradições.


Enfim, escrever personagens que um dia terão rosto e voz tem sido, assim como a poesia, uma costura. Passei a me observar mais, a observar mais os ambientes e os trejeitos das pessoas, seus comportamentos, pois um dia quero vê-las não apenas nas páginas, mas principalmente nas telas.


Por fim, chegamos ao terceiro trabalho, e este texto está uma salada mista, assim como minha vida: a produção cultural.


2025, ano de Bienal no Ceará, e posso finalmente compartilhar a notícia de que serei coordenadora do eixo Literatura e Juventude. Isso significa que toda a programação para o público jovem está nas minhas mãos e de mais quatro pessoas, com quem divido essa coordenação. Tem sido maravilhoso conhecer tantas pessoas que cada um de nós indicou e ver como nossas cabecinhas se relacionam e se dão match de ideias e atividades. Mas não é um trabalho fácil.


Também quero dizer por cima que, em breve, terão duas publicações vindo aí. E compartilhar que agora tenho uma página na Amazon onde você pode encontrar indicações organizadas de livros. Estarei sempre por lá organizando a “curadoria" das listas de indicações.

Por último, quero compartilhar um pouco do que andei consumindo nas últimas semanas.


Começando pelo cinema, assisti ao filme Pedro Páramo, disponível na Netflix. O longa é uma adaptação do romance clássico do escritor mexicano Juan Rulfo e tem como protagonista Juan Preciado, um homem que, após a morte da mãe, parte em busca do pai que nunca conheceu, o enigmático Pedro Páramo. O que parecia ser uma jornada comum logo se transforma em uma experiência fantasmagórica, na qual realidade e memória se misturam. O filme, estrelado por Tenoch Huerta (nosso Namor no universo da Marvel), traz elementos do horror e do realismo mágico que me pegaram de jeito em várias cenas. Além de ser uma referência visual e narrativa, me fez pensar muito sobre como certos objetos e símbolos podem ser utilizados para reforçar camadas na construção de um roteiro.


No universo dos animes, tentei retomar Jujutsu Kaisen e vi o primeiro episódio de Neon Genesis Evangelion. Tenho buscado consumir mangás e animes também como forma de estudo, principalmente no que diz respeito a arcos narrativos e desenvolvimento de personagens.


Agora, sobre livros.


Um dos que mais me impactaram recentemente foi Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon. Publicado em 1961, o livro é um dos textos mais importantes sobre colonialismo e descolonização, analisando os impactos psicológicos e estruturais da opressão colonial. A leitura dele dialogou diretamente com o momento atual e me fez refletir sobre algumas questões que quero abordar futuramente. Além disso, foi nessa leitura, e também na de Uma Ecologia Decolonial, de Malcom Ferdinand, que surgiu a ideia de criar um quadro no meu Instagram: Livros Essenciais para os Dias Atuais. Vem aí, logo.


Não abandonei a ficção, viu?


Desde o fim do ano passado, decidi focar na leitura de ficção científica para entrar no ritmo de escrita do meu próximo livro dentro do universo de Eu Conheço Uzomi. Tenho relido clássicos e acompanhado lançamentos de autores brasileiros, com um esforço especial para ler mais mulheres dentro do gênero. Nesse processo, reli 1984, de George Orwell, voltei para os contos de Eu, Robô, do Isaac Asimov, e estou revisitando A Parábola do Semeador e A Parábola dos Talentos, da Octavia Butler. Quero muito expandir minha lista, então, se tiver indicações, me manda!


 
 
 

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